A trágica história do 2=1

A primeira coisa que todo professor faz quando um aluno cursa a disciplina de Cálculo 1 ou mesmo antes da faculdade, quando você é um daqueles 2-3 da sala que ficam discutindo com o professor de matemática, enquanto todos os outros alunos correm para o praticar algum esporte no intervalo do colegial.
Nos dois casos, o maior rito de passagem dos estudantes de engenheira, física, matemática, direito (óbvio que não, eles processariam o professor alegando negligência no ensino, sem mesmo entender a piada ) e outros nerd é quando o professor demonstra que 2=1. É mais um rito de passagem, tal qual todo jovem brasileiro que gosta de rock aprender a letra completa de Faroeste Caboclo, bem menos popular, mais ainda sim um rito.
Por que isso agora ?  Bom, como me formei, dediquei a última semana um tempo para organizar os cadernos da graduação, para evitar misturar com as coisas do mestrado e me colocar na situação em que fiquei quando terminei o ensino médio e fui para a faculdade. As vezes queria retomar algo dos cadernos do colégio e simplesmente não os encontrava.
O fato é que no caderno do primeiro semestre  encontrei logo na folha da primeira aula tal discussão sobre como mostrar que 2=1 e mostrar o porquê de estar errado. Lembrei-me também do professor Oscar, uma vez na disciplina de Controle II quando eu tentei demostrar a identidade de Euler e fiz de maneira errada, ele parou, olhou e espantado disse enfaticamente: “Heresia”.

Sempre que vejo algum aluno dizendo que é verdade, que consegue provar que 2=1, faço como Oscar, penso ou digo:”Heresia”.
Existe 1 milhão de maneiras diferentes de propagar tal heresia matemática. A mais comum é a segunte:

Queremos demostrar que 2=1, portanto, representaremos os valores númericos por a e b, variáveis distintas já que são valores diferentes.
Como tentamos provar que a=b, temos:
a = b = 1,
logo a = 1 e b = 1
Portanto,
a = b
Se multiplicarmos os lados por 1, temos:
a x a = b x a
Como a x a = a² = 1
Assim como, a x b (ou b x a, que é a mesma história) = 1, substituindo
a² = ab
Em seguida, podemos subtrair b² do 2 lados
a²-b² = ab-b²
Fatorando pela diferença de quadrados ou separando pelos fatores comuns, temos:
(a+b)(a-b) = b(a-b)
Como temos (a-b) dos 2 lados, podemos eliminá-los:
(a+b) = b
Portanto, temos que:
a+b = b
Substituindo com valores númericos
1+1 = 1
2 = 1
Quando olhamos para a expressão com variáveis o cálculo faz sentido, mas se olharmos numericamente parece um pouco estranho por afirmarmos coisas como 2=1, porém, como o objetivo seria provar de fato isso, aceitamos numericamente.
Bom, onde então está o erro ? Simples, bem simples!
Se a=1 e b=1, a-b=0, portanto a simplificação não pode ser feita, pois divisão por 0 é uma indeterminação.
Portanto a linha:
Fatorando pela diferença de quadrados ou separando pelos fatores comuns, temos:
(a+b)(a-b) = b(a-b)
Está incorreta, porque numericamente o que temos é:
(0)/(0)

Concluimos que o cálculo está incorreto, que podemos voltar a viver normalmente por que a matrix em que vivemos não tentará executar uma divisão por 0 e não terá um buffer overflow e que na matemática a malandragem carioca não funciona tão bem.

Digg This
Reddit This
Stumble Now!
Buzz This
Vote on DZone
Share on Facebook
Bookmark this on Delicious
Kick It on DotNetKicks.com
Shout it
Share on LinkedIn
Bookmark this on Technorati
Post on Twitter
Google Buzz (aka. Google Reader)

About Moisés Souto

Moisés Souto possui graduação em Engenharia de Computação pela Universidade Potiguar (UnP) e atualmente é Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Elétrica e de Computação pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).Tem experiência na área de Ciência da Computação e Engenharia de Computação, com ênfase em Engenharia de Software, atuando principalmente nos seguintes temas: Administração de Sistemas Operacionais GNU/Linux; Segurança e Auditoria de Sistemas; Sistemas Distribuídos e Processamento Paralelo; Implementação de Soluções e Tecnologias em Software Livre; Sistemas Inteligentes; Sistemas e Tecnologias de Rede e Internet; Administração de redes e serviços; Desenvolvimento web; Programação Orientada a Objeto; Administração de Banco de Dados; Gerência de tecnologia de informação; Programação baixo nível para dispositivos embarcados e microcontroladores; Concepção de circuitos integrados; Automação e Controle; Robótica.
This entry was posted in besteira, geral and tagged . Bookmark the permalink.

One Response to A trágica história do 2=1

  1. Karlisson says:

    Um professor de lógica mostrou isso numa aula de introdução a ciencia da computação =P

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

*

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>